A Ascenção do Whisky Japonês

Hoje, para sair um pouco do saquê - mas continuar no cenário das bebidas japonesas - vou falar um pouco sobre o whisky da terra do sol nascente. Mesmo que você não goste muito de whisky, é possível que já tenha ouvido falar sobre o whisky produzido por lá. Ou não.



O fato é que esse destilado alcançou um grau de excelência no Japão e saber disso é um primeiro passo para conhecer um pouco mais e, se aparecer a oportunidade, experimentar. É um pouco dessa trajetória de sucesso - que tornou o whisky japonês tão desejado - que vou te contar hoje.


Em 2014, a novela Massan, transmitida pelo canal NHK da TV japonesa, trouxe uma história baseada na vida do japonês Masataka Taketsuru e sua esposa escocesa Rita. Taketsuru foi um dos principais responsáveis por levar para o Japão, há cerca de cem anos, as técnicas de produção do whisky, após ter passado um período na Escócia, onde também conheceu sua amada esposa Rita. A novela matinal (no Japão) fez muito sucesso e aguçou, em especial, a curiosidade dos não bebedores de whisky no país.


Foto divulgação NHK Japão

Nos últimos anos, paralelamente, os whiskies japoneses ganharam diversos prêmios mundiais no World Whiskies Awards. Por exemplo, o Taketsuru Pure Malt 17 anos, da Nikka, ganhou como melhor blend do mundo em 2015 e 2018. Por sua vez, o Hibiki 21 anos, da Suntory, ganhou o mesmo prêmio nos anos de 2016, 2017 e 2019. Ou seja, nos últimos anos, somente blends japoneses têm ganhado como melhor do mundo. Isso só para ficar em poucos exemplos, já que inúmeros outros whiskies japoneses foram premiados por diferentes concursos e entidades.


Além desses muitos prêmios internacionais recorrentes, um nome de peso no mundo do whisky, Jim Murray, conferiu ao Yamazaki Single Malt Sherry Cask 2013 o título de melhor whisky do mundo, em sua edição de 2015 da Whiskey Bible ("Bíblia do Whisky", em tradução livre), quebrando uma longa hegemonia europeia, principalmente escocesa.


Suntory Yamazaki Sherry Cask 2013 - melhor whisky do mundo em 2015 (foto divulgação Suntory)

Para o mercado de whiskies envelhecidos do Japão, foi a tempestade perfeita: vários prêmios internacionais em sequência, novela de sucesso em 2014 e a escolha de melhor whisky do mundo em 2015 por Jim Murray. Simplesmente não havia whisky suficiente para todos.


O consumo interno, que seguia uma tendência de estagnacâo, retomou um crescimento vigoroso (inclusive em razão da retomada do consumo dos whiskies mais simples, em formato do drink high ball, poucos anos antes). Apreciadores do mundo inteiro também passaram a consumir muito mais, além de colecionar os whiskies japoneses envelhecidos (que passaram a ser cotados em grandes centros internacionais do colecionismo de bebidas, como Londres e Hong Kong).


Para um povo que tem por característica cultural estar preparado e se planejar ao máximo, esse foi um imprevisto dos grandes. Dá até para imaginar a tensão em reuniões internas dos executivos das maiores marcas japonesas, como Suntory e Nikka. Esses produtores correram para lançar versões não envelhecidas de seus whiskies.


Lembrando que nenhum deles esperava um aumento tão grande do consumo nesses últimos anos e que, para produzir whiskies envelhecidos, seria necessário que os mesmos tivessem previsto esse "boom" e começado o estágio nos barris de madeira lá atrás, há 12, 18, 21 anos.


Como resultado, hoje é muito difícil encontrar essas garrafas premiadas ou envelhecidas (das marcas Nikka e Suntory) nas lojas por lá. Isso sem falar em algumas destilarias mais antigas e extintas, como Karuizawa e Hanyu, que estão em outro patamar - mais elevado - de preço. Como viraram objeto de coleção no mundo inteiro, seguem cotações internacionais e, em geral, são encontradas somente em alguns comércios online.


Por outro lado, há rótulos desses produtores, não envelhecidos, bem interessantes e a preços acessíveis. Só recomendo cuidado com algumas marcas japonesas menos conhecidas que, eventualmente, apesar de destacarem a idade de envelhecimento no rótulo, podem conter whiskies de outros países no blend (o que é permitido pelas regras japonesas, mas pode não ser a expectativa de quem está comprando).


Espero que tenha gostado e fico à disposição caso tenha alguma dúvida ou comentário (via redes sociais ou e-mail fabio@megasake.com.br).


Um abraço!


Fabio Ota

Sake Sommelier

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