Conheça o Nigorizake!

Confesso que até pouquíssimo tempo, quando comecei a trabalhar no salão de um restaurante japonês, eu desconhecia o favoritismo pelo Nigori, “o saquê branco”.


Foi uma celebridade, habitué da casa, que um dia desses me repreendeu por ter deixado faltar seu saquê favorito da carta (que ela chama carinhosamente de “branquinho”), que me fez perceber quão querido é o Nigori.


As garrafas de Nigori são mesmo bonitas, e o líquido branco e turvo dentro dela chama a atenção e desperta a curiosidade das mesas ao lado: “Por favor, o que é aquilo que ela está bebendo?”.


A palavra Nigori (濁り) pode ser traduzida como nebuloso, portanto, Nigorizake (濁り酒) é o saquê nebuloso. É uma bebida turva e branca, com aspecto “leitoso”. Geralmente são saquês doces e frutados, levemente espumantes (existem os secos também!).


Nigorizake, o saquê "nebuloso".

O Nigori nada mais é do que um saquê rusticamente filtrado, que conserva sedimentos do arroz fermentado. Quando a garrafa passa um tempinho em posição vertical, podemos observar os sedimentos decantando-se ao fundo da garrafa, e o líquido então passa a ser relativamente transparente e incolor. Antes de abrir uma garrafa de Nigorizake, é aconselhável vira-la algumas vezes – suavemente – de ponta cabeça para misturar os sedimentos ao líquido novamente, e ter uma bebida homogênea (atenção, não se deve sacudir a garrafa! Rsrs).


Uma vez fermentado o moromi (mosto), este passa por um processo de filtragem mais permissivo que o usual, com uma espécie de peneira de aço com furos de até 0,2cm de diâmetro, que filtra os sedimentos maiores como os pedaços de arroz não dissolvidos, e deixa passar os sedimentos mais finos.


É importante lembrar que de acordo com a legislação japonesa, para ser considerado “saquê” o mosto deve passar por algum tipo de filtragem, ainda que rusticamente. Portanto, é incorreto afirmar que o Nigori é um saquê não filtrado!


Foi inspirado no Doburoku, um saquê não filtrado produzido ancestralmente no Japão por muitos séculos (foi proibido na Era Meiji por ser “caseiro”, e ir contra a então nova legislação e impostos da época, e sua proibição perdura até hoje) que o produtor Tokubee Masuda, da Tsuki no Katsura Brewery em Quioto, diz ter criado o Nigorizake em 1964.


Nigorizake Junmai Daiginjo da Tsuki no Katsura Brewery, feito de arroz local e água de Fushimi, em Quioto. (http://www.tsukinokatsura.co.jp/ec_shop/)

Caindo no gosto dos consumidores, principalmente fora do Japão (Estados Unidos é um grande consumidor de Nigori!), o Nigorizake passou a ser produzido por muitas sakaguras que buscavam crescer seu portfólio e sua fatia do mercado.


É um queridinho muito procurado nos restaurantes japoneses por essas bandas, e vai muito bem com comidas apimentadas, ou para acompanhar uma sobremesa.

Adoro uma tacinha de Nigori com Mochi Daifuku! =)


E você, o que costuma comer para acompanhar o seu Nigori?


Kampai!


Por Andréa Machado Sake Sommelière

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