Já ouviu falar de recall de saquê?


Pois é, acontece. Há menos de um mês, a Asahi Shuzo, fabricante dos famosos saquês Dassai, anunciou um recall de 260 mil garrafas produzidas entre abril e agosto de 2019. Apesar de não oferecer risco à saúde nem ter sido uma obrigatoriedade imposta pelas autoridades, essas garrafas apresentaram variação no grau alcóolico, entre 12 e 17 graus, quando deveriam ficar em 16%, que é o que consta nos rótulos. Isso ocorreu em razão de um procedimento equivocado no processo de adição de água.



A adição de água, ou warimizu, faz parte do processo de fabricação e é feita na maioria dos saquês produzidos. Isso porque o grau alcoólico ao final da fermentação é alto, podendo chegar a cerca de 20% (no caso de saquês mais delicados, com uma fermentação mais lenta, como os Dassai, o grau alcóolico final, antes da diluição, fica nas casa dos 17%). Então a água é adicionada tanto para baixar esse percentual quanto para balancear os sabores no produto final.


Segundo a Asahi Shuzo, ocorreu uma falha no processo de warimizu em uma das fábricas, pois os tanques onde o saquê é diluído não foram devidamente mexidos. Por não ter ocorrido a mistura, as diferentes porções desses lotes saíram com diluições variáveis e causaram essa amplitude de diferentes graus alcoólicos.


Em outro comunicado, a fabricante se desculpa e informa que os rótulos afetados são o Dassai 39 e o Dassai 45 que, como os próprios nomes sugerem, são Junmai Daiginjo com seimaibuai (índice remanescente do grão, em peso, após polimento) de 39% e 45%, respectivamente.


No último dia 01 de outubro, Dia Mundial do Saquê, pude apreciar o Dassai 39, porém fabricado fora desse período do recall. Embora não dê para opinar objetivamente, é possível imaginar que o resultado nas garrafas pode ter sido o seguinte: algumas podem passar a sensação de diluição (aquelas mais próximas aos 12 graus alcoólicos) e outras com mais álcool, talvez mais peso e corpo (próximas aos 17 graus, o que seria um Genshu, não diluído, que nem é colocado no mercado pela Asahi Shuzo).


E foi na degustação feita pelo encarregado do engarrafamento, no dia 29 de agosto de 2019, que se detectou uma amostra com sabor mais leve que o usual. Exames posteriores confirmaram que o grau alcoólico daquela amostra estava bem abaixo do normal.

Engarrafamento da Asahi Shuzo, em foto da visita que fiz em maio de 2019. Setor em que foi detectado o problema.

Como em qualquer indústria, um recall é uma grande dor de cabeça. Claro que uma boa parte das garrafas já foi bebida – não tendo sido registrada qualquer reclamação – mas 260 mil é uma quantidade respeitável, e inclui lotes que chegaram a ser exportados.


Além de implantar melhorias para evitar que isso ocorra novamente, a fabricante irá repor as garrafas dos lotes afetados. A meu ver, isso demonstra uma grande preocupação com a qualidade do produto final e com a imagem da marca, como produto “high end” - considerando ainda que o recall foi feito espontaneamente, sem obrigatoriedade imposta pelas autoridades.


E você, já tinha ouvido falar de recall de saquê? O que achou desse recall?


Bons saquês e kampai!


Fabio Ota

Master Sake Sommelier

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