Niigata Ponshukan – o dia em que provei 110 saquês em 5 horas

Hoje vou contar para vocês sobre a visita que fiz ao museu do saquê da província de Niigata, um verdadeiro parque de diversões para quem curte a bebida.


O museu se chama Niigata Ponshukan, e possui três unidades distribuídas pela província. Tive a oportunidade de visitar as unidades de Echigo Yuzawa em janeiro desse ano e a da estação de Niigata no último mês de julho.


Entrada do Ponshukan de Echigo Yuzawa - Foto Fabio Ota

Para quem é fã de saquê e, em especial, do estilo tanrei-karaguchi (corpo leve e seco, com final curto, conforme já abordamos nesse post) típico de Niigata e dos saquês produzidos com a variedade de arroz gohyakumangoku, o lugar é realmente uma perdição. São milhares as garrafas e os produtos disponíveis, mas o ponto alto são as maquininhas automáticas de saquê.


Como da primeira vez que fui, em janeiro, só estava de passagem, planejei minha volta ao Niigata Ponshukan nessa minha última viagem de julho, em meio ao calorão do verão japonês, mas com tempo para ver tudo com calma.


Partindo de Tóquio, cheguei à estação de Niigata por volta das 10hs da manhã e, maravilhado, contemplei aquela parede inteira de máquinas automáticas de saquê, 111 ao todo. Sentia que as máquinas me encaravam também, com um ar desafiador. Afinal, por onde começar? O que beber? Como cobrir o maior número possível de rótulos?


Close das máquinas de venda de saquês em doses (de 25 ml) - Foto Fabio Ota

Fui informado do sistema: cada cinco fichas custariam 500 ienes (cerca de 19 reais) que poderiam ser utilizadas em qualquer máquina, para doses individuais de 25 ml. Eu não tinha a menor ideia de quais saquês experimentar (dúvida que, pude perceber, assola quase todo o visitante do lugar). Poderia ir naqueles poucos que eu já conhecia, mas qual seria a graça? Então me bateu uma ideia maluca… por que não experimentar todos?


Corri para uma loja vizinha para comprar uma caneca grande de café, que serviria como “cuspidor”. Afinal, não dá para beber/engolir 111 saquês e achar que vai sair andando de lá (e ainda pegar um trem de volta para Tóquio). Como a área das máquinas de saquê estava bem tranquila, o começo foi sossegado. O local tem pia para lavar os ochokos (copos de cerâmica para a prova do saquê), o que viabilizou o plano de, discretamente, esvaziar a minha caneca de “café” de tempos em tempos.


Como o preço da dose é sempre o mesmo, as máquinas trazem saquês dos mais de 90 produtores diferentes – todos da província de Niigata – mas que têm, mais ou menos, uma mesma faixa de preço. Assim, não são os mais caros de cada sakagura, mas a variedade era enorme.


Foram saquês dos seguintes tipos: 37 junmai ginjo, 34 junmai, 21 tokubetsu junmai, 5 honjozo, 2 futsushu, 2 tokubetsu honjozo, 2 junmai daiginjo, 2 umeshu (não é saquê, mas sim um licor de um tipo de ameixa japonesa) 1 junmai ginjo yamahai, 1 junmai kimoto, 1 ginjo, 1 junmai ginjo genshu e 1 junmai namachozo. Se contaram aí, isso resultou em 110 diferentes rótulos, mas é porque a máquina 81 estava fora de serviço.


Painel com todos os produtores de saquê de Niigata - Foto Fabio Ota

Começando do número 1, fui provando cada um dos saquês e, aos poucos, fui pegando ritmo, sempre anotando minhas impressões em um caderninho.


Só que próximo da hora do almoço o local ficou lotado! A ponto dos visitantes ficarem quase cotovelo com cotovelo. Aí foram muitos os olhares curiosos para aquele ser estranho (eu) que, a cada dois ou três minutos, provava um saquê, cuspia, fazia anotações e voltava para as máquinas para pegar o próximo.


Resolvi fazer uma pausa lá pelo número 65, por volta das 14hs, porque além de bater uma fome, a predominância do estilo seco e curto – o tal do tanrei-karaguchi – já estava um tanto monótona. Aí algumas exceções mais frutadas e com maior corpo acabavam ressaltando.


Aliás, esse é um ponto negativo de degustar tantos exemplares na sequência. Como a maioria seguia uma mesma linha, aqueles que não seguiam essa tendência acabaram por parecer excessivamente refrescantes ou frutados – o que nem sempre era verdade, num contexto mais amplo, como pude confirmar provando com calma, depois, algumas das garrafas que comprei.


Voltei após o almoço para finalizar os 45 restantes. Fui terminar lá pelas 17hs, tendo gasto mais ou menos umas cinco horas e pouco para degustar todos os 110 saquês, uma média de um saquê a cada 3 minutos (bem mais tranquilo do que atuar como juiz de competições de saquê, onde há menos tempo que isso). A brincadeira custou 11 mil ienes (cerca de 400 reais), fora o valor das garrafas que comprei para trazer, dos saquês que mais gostei, mas valeu cada centavo (maneira de dizer, porque não há centavos na moeda japonesa).


Mais duas horas de trem-bala para Tóquio e assim terminou meu dia: cansativo mas feliz, nesse parque de diversões para amantes do saquê, o Niigata Ponshukan.


E você, o que achou do relato? Encararia todos os saquês ou somente alguns? Quantos? Deixe seu comentário nas mídias sociais do @megasake, ok? Kampai!


Fabio Ota

Master Sake Sommelier

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