O Saquê do “estalo"

Atualizado: 23 de Mar de 2019

Eu me lembro bem: Santiago do Chile, há uns quinze anos, jantar em um dos restaurantes mais legais da cidade. Estava em viagem a trabalho, grupo grande, duas mesas de dez pessoas cada. Um dos diretores, por sorte sentado em minha mesa, pede o vinho chileno mais caro da carta.

Não me lembro o que comi naquela noite. Aliás, não me lembro de quase mais nada. Só me lembro que aquele vinho, em taça única (pois era muito caro para ser repetido) foi o responsável pelo “estalo".

Sabe aquele choque pela descoberta de algo totalmente novo? Como podia um vinho ser tão bom? O que era aquele sabor intenso de frutas vermelhas, lindamente arredondado com um elegante sabor de madeira? O que era aquele vinho?

Nada que eu havia tomado até aquele momento chegava aos pés daquele. Era um Don Maximiano, da vinícola Errazuriz, um dos grandes vinhos do Chile. Não me lembro qual era a safra.


Mas porque estou falando de vinho em um portal sobre saquês? Porque, da mesma forma que um vinho pode dar um “estalo" inicial, o saquê tem tudo para estalar e acender aquela chama dentro de nós.

Mas esse estalo tem mais chance de ocorrer se for o saquê certo, servido do jeito certo, em uma ocasião apropriada.

Veja que não sou purista a ponto de criticar, por exemplo, a caipirinha de saquê. Se muita gente gosta, por que não? Se vai ajudar a ser porta de entrada para a bebida, por que não? Se servir para aguçar a curiosidade, já está valendo. Basta saber que saquê não é um destilado e que há exemplares muito melhores e elegantes do que aquele que está sendo usado no seu drink.

Mas a chance de o “estalo" acontecer com um saquê de qualidade é bem maior, concorda?

O meu “estalo" no mundo do saquê aconteceu com o Yamada-ho, um junmai daiginjo da Hakutsuru que, na época – uns sete anos atrás – era exclusividade de um restaurante japonês em São Paulo. O pouco que eu conhecia sobre saquês foi para o espaço quando experimentei o Yamada-ho.


Linda garrafa do Yamada-ho, da Hakutsuru. 山田穂, em sua leitura oficial em japonês é pronunciado como Yamada-Bo.

Claro que, da mesma forma que o Don Maximiano é um grande vinho, o Yamada-ho é um grande saquê. Ambos são Premium e caros (principalmente aqui no Brasil). É realmente fácil se encantar com bebidas como essas. Quanto melhor o saquê, maiores as chances de ocorrer o “estalo".

Por outro lado, como nos relacionamentos humanos, o amor também pode acontecer aos poucos, sem o momento mágico do “estalo". E isso não o torna pior ou melhor.

Para quem acompanhou o salto de popularidade dos vinhos no Brasil, sabe que esse amor pode evoluir de uma garrafa azul alemã para um substancioso Malbec argentino e, daí, alçar voos para a França, Itália e península ibérica.

No mundo do saquê, o amor pode começar numa caipirinha de saquê, evoluir para uma garrafa de saquê nacional num almoço preguiçoso de domingo e engrenar de vez com um junmai ginjo japonês, no jantar no restaurante de sushi preferido, servido em taça de cristal.

Seja a partir de um “estalo" ou passando por uma apreciação gradual e crescente, o legal é que o amor pelo saquê gratifica e compensa igualmente. Também instiga a aprender mais. E, como qualquer outra bebida, demanda “litragem" como parte desse aprendizado.

Portanto, se para você o “estalo" ainda não ocorreu, tente dar mais chance para que aconteça. Ou esteja aberto/a para que a relação cresça naturalmente.


Saúde! Kampai! 乾杯!


Fabio Ota, Sake Enthusiast

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