Omotenashi e Saquê


Voltando agora de viagem de férias com a família, me ocorreu escrever um pouco sobre o omotenashi, que tem várias definições mas, entre elas, representa a filosofia que está por trás da hospitalidade e da excelente qualidade dos serviços prestados no Japão.


Nas férias de uma semana, passamos por uma capital europeia bem legal, passeando e comendo muitas coisas gostosas, e foi bem interessante observar como as diferenças culturais podem impactar na qualidade dos serviços prestados em hotéis, restaurantes, companhias aéreas, táxis, comércio etc.


Na cidade que visitamos, os taxistas são fonte de tensão para turistas. Pela minha experiência, grande parte deles está disposta a passar qualquer incauto para trás. Já nos supermercados, ao passar pelo caixa, é muito comum que suas mercadorias sejam literalmente jogadas na bancada, antes que você possa coloca-las nas sacolas. Bandejas de comida no serviço de bordo, quase arremessadas. Em qualquer lugar, é comum ver funcionários discutindo entre si enquanto o cliente está ali na frente, esperando o atendimento. Enfim, foi um bom exemplo do que não é omotenashi.


Falar de omotenashi daria um livro – na verdade, mais de um – mas a ideia não é essa. Então vamos pular para o omotenashi no contexto do assunto que mais nos interessa aqui, que tal?



No serviço do saquê, o omotenashi pode aparecer em diferentes formatos. O primeiro vem muito antes de o saquê ser servido num bar, restaurante ou em casa. Está no cuidado com que a bebida foi produzida, envasada e, até, disposta no ponto de venda. Está nos recipientes pensados nas pessoas que irão tomar o saquê e nas ocasiões em que isso irá ocorrer.


Por exemplo: alguns podem achar que os ochokos são recipientes pequenos demais pois necessitam sempre estar sendo preenchidos, mas é aí que está a beleza desses copos. De fato, o ochoko é pequeno mas foi pensado para possibilitar a interação social, já que é costume no Japão servir os companheiros de mesa e ser servido por estes. Em geral, antes que o saquê de seu colega se acabe, é de bom tom completar o copo dele ou dela. O seu próprio, se tudo der certo, alguém irá completar (essa regra se flexibiliza um pouco a partir do momento em que todos na mesa já estão bem “altinhos”).


Outro exemplo de omotenashi poderia ser o conhecido “chorinho”, quando os bares servem um pouco mais da dose normal. Isso acontece, por exemplo, nos izakayas (bares japoneses) onde o saquê transborda o copo e vai parar no pires ou na famosa caixinha, o masu (em alguns locais o masu faz papel de pires, e um outro copo vai dentro dele). Eu penso que essa é uma forma de omotenashi, mas um tanto mais superficial, já que há um benefício diretamente ligado à quantidade, e que não é exclusividade do Japão – existe também em diversas outras culturas (quem nunca ganhou um chorinho numa dose do whisky ou da vodka preferidos?).



O verdadeiro omotenashi está nos detalhes, talvez não percebidos de início ou até entendidos como obra do acaso… mas quando estamos falando de Japão, aquela experiência perfeita é, provavelmente, fruto de muito planejamento e atenção aos detalhes, ao longo de muitos anos, senão de gerações.


A descoberta pelo resto do mundo do omotenashi no Japão, sem contar o saquê e outras delícias do sol nascente, além das Olimpíadas de 2020 em Tóquio, ajuda a explicar o crescimento vertiginoso do turismo por lá. Em cinco anos, o número de turistas estrangeiros no Japão triplicou. Isso mesmo, triplicou. Passou de dez milhões em 2013 para mais de 30 milhões em 2018. E é o destino mundial que mais cresce em número de turistas.


Afinal, quem não gosta de ser bem atendido, com o máximo respeito, na maioria dos serviços existentes? Sem contar que é muito raro encontrar situações em que o turista é passado para trás, tornando a viagem mais relaxada e prazerosa.


E você, já conhece o Japão? Já pensou em conhecer? Conte para a gente seus planos e o que acha do omotenashi, em nossas redes sociais, ok?


Kampai!!!


Fabio Ota

Sake Sommelier

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