Sobre o preço do saquê – Parte I

Atualizado: 19 de Abr de 2019


Hoje vamos começar a falar sobre o preço do saquê, em vários mercados, incluindo o brasileiro. Para esse primeiro post sobre o assunto, vamos focar nos preços de varejo no Japão e utilizaremos um comparativo entre vinhos e saquês, em termos mercadológicos, tratando de como essas diferenças afetam o preço dessas duas bebidas.


É certo que o mercado mundial de vinhos é completamente diferente do mercado de saquês. O primeiro é muito maior em todos os aspectos: consumo, produção, valores etc. O de saquês tem sua produção concentrada no Japão e, embora com consumo e fabricação expandindo em países estrangeiros, ainda é um mercado bem pequeno, se comparado ao de vinhos.


Alguns vinhos podem ser guardados por décadas, evoluindo na garrafa e melhorando com o tempo. Isso contribui para que o mercado de vinhos para colecionadores seja tão ativo e o preço das garrafas mais famosas seja tão alto em qualquer país, mas principalmente nos Estados Unidos, Europa e alguns países da Ásia (China e Japão incluídos).



As garrafas de saquê, em geral, possuem um período de guarda curto. Isso significa que, após a saída da fábrica, algumas qualidades do saquê começam a decair gradualmente, e o consumo deve ocorrer, idealmente, em um período de um, dois ou três anos – esse período não é consenso e a verdade é que para cada saquê pode ser aplicável um prazo diferente.


Assim, por não possuírem potencial de guarda e de valorização (pelo contrário, se guardadas por muito tempo, vão perder as características e, consequentemente, o valor), as garrafas de saquê não vão alcançar um valor altíssimo, tal qual ocorre com premiados vinhos de Borgonha ou Bordeaux, na França, por exemplo.


Claro, esse não é o único fator, já que, como comentamos acima, o mercado dos vinhos é bem maior e diferente do de saquês. Mas é um fator. Afinal, por que pagar tão caro numa garrafa que terá que ser consumida logo? Não é como um vinho que pode ser guardado por uns vinte ou trinta anos, que pode ser revendido com algum lucro, no meio do caminho, ou aberto quando a sua filha, caloura de medicina hoje, inaugurar seu consultório daqui a dez anos.


Esta é a razão pela qual não existe uma variedade de safras nas cartas de saquê. Com raras exceções, não vamos encontrar listados o honjozo da marca X da safra de 2017, o junmai daiguinjo da marca Y da safra de 2014 – e por aí vai. Já para o vinho, é bem comum – e correto – encontrar na carta a safra a que cada vinho se refere.


Também é bastante raro encontrar coleções particulares gigantescas de saquê, enquanto que há milhares de grandes colecionadores particulares de vinhos ao redor do mundo.



Daí que os preços dos saquês mais caros não chegam nem perto dos preços dos vinhos mais caros. No mercado japonês, por exemplo, um excelente junmai daiginjo, como o Dassai 23, produzido no ano, custa por volta de 50 dólares no varejo. Um super junmai daiginjo da Hakutsuru, o Tenku, filtrado por gotejamento, custa por volta de 100 dólares. Isso para ficar em alguns nomes de saquês que chegam ao Brasil – às vezes de forma intermitente. Vinhos estrelados, de grandes marcas de Bordeaux, por sua vez, podem custar, na safra atual, dez vezes ou mais, no varejo do Japão.


Novamente, não é o único fator, mas minha teoria é a de que, quando se fala de marcas míticas de vinho ou saquê, estamos falando também de um intangível, quase de uma obra de arte que, quanto mais dure ou possa ser armazenada, maior o seu valor percebido e, consequentemente, seu preço.


Então, nessa primeira parte de nossas análises, pudemos concluir que há um limitador do preço do saquê, que é sua baixa longevidade, seu curto período de guarda. Vimos também que o saquê é feito para ser bebido, não guardado.


Em próximos posts da série, continuaremos a analisar outros fatores que impactam os valores cobrados por aqui, no Japão e no resto do mundo.


Como no universo do saquê também as regras não são sempre absolutas, fiquem à vontade para contrapor esses argumentos e contribuir para a discussão, via nossas redes sociais #megasake ou no e-mail fabio@megasake.com.br.


E lembre-se: o saquê certo é o saquê que você gosta! Kampai!!!


Fabio Ota

Sake Sommelier

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