Uma viagem de Saquê na Província de Fukushima


Trabalho com turistas brasileiros na Terra do Sol Nascente há alguns anos e é surpreendente para mim que tão pouca gente no Brasil conheça o saquê. Falo isso porque, apesar do Japão ser um país distante do continente sul-americano, a cultura japonesa é muito próxima de nós. Isso é uma herança da imigração japonesa e os nipo-brasileiros devem ser orgulhar muito do modo como preservaram a cultura de seus antepassados no Brasil. Nossa intimidade com as coisas do Japão é tão grande que tomamos até a liberdade de criar sushis com frutas e outras coisas que dariam arrepios aos japoneses só de pensar (nem vou falar da pizza de sushi. Se-nhor!!!).

Brincadeiras à parte, isso tudo é só para ilustrar que poderíamos, sim, saber mais sobre o saquê. Aqui no Japão, organizo visitas a fábricas de saquê de várias partes do país para as pessoas que nos contratam. No entanto, não é estritamente necessário ter um guia para isso. Boa parte das fábricas de saquê, em especial as artesanais, recebem visitantes e oferecem degustação, muitas vezes sem cobrar nada.

Recentemente, gravei um vídeo numa dessas fábricas, que fica na cidade Kitakata (Província de Fukushima - vide aqui o post anterior sobre a Província). O vídeo vai estar no final deste artigo mas, antes que você assista, deixa eu contar um pouco mais sobre essa experiência e te mostrar como uma visita a uma fábrica de saquê pode enriquecer sua visita ao Japão.


Sakagura visitada em Fukushima (foto: Roberto Maxwell)


Muita gente acha que o saquê é uma bebida parecida com a cachaça. Mas isso depende de que tipo de saquê estamos falando. O nihonshu, que é o tema do vídeo que você vai ver daqui a pouco, não tem nada em comum com a nossa branquinha além da coloração. Fermentada feita de arroz, esta bebida japonesa costuma ter sabor suave, apesar do teor alcoólico ser relativamente alto, entre 13 e 16%. Portanto, quem gosta de bebida alcoólica tem tudo para encontrar um saquê nihonshu que agrade ao seu paladar.


Só para deixar o registro, o Japão tem duas bebidas tradicionais destiladas: o awamori, um saquê produzido em Okinawa; e o shochu, fabricado em várias partes do país, sendo que, pela natureza de sua produção, ambas podem lembrar, mesmo que de longe, o sabor da cachaça.

Um mergulho no passado

A mais tradicional bebida do Japão também é uma enorme fonte de histórias sobre o país e sua cultura. Além de todas as lendas envolvendo o saquê em visitas como essa é possível aprender sobre a história da região. Kitakata, que fica a cerca de 3 horas de viagem de Tóquio, era uma área de produção de arroz no entorno do Tsurugajo, um castelo medieval que ficava na cidade vizinha de Aizu-Wakamatsu, atualmente reconstruído e aberto a visitações.

Importante pólo de produção de arroz, a região abastecia o senhor feudal e seus vassalos. Cerca de três séculos atrás, a pedido dele, a produção de saquê começou em Kitakata, usando o arroz excedente e aproveitando a água que vem das montanhas que encapsulam a área, num processo lento de derretimento da neve que se acumula nos picos e vai percolando pelo solo até chegar nos mananciais.

Ao contrário de algumas outras fábricas, a que conheci não tem um programa de visita regular aos espaços de produção. Porém, isso é compensado pelo pequeno museu que fica numa antiga unidade fabril da empresa. A construção é uma aula de arquitetura japonesa tradicional. Já na entrada fica um armazém, com suas grossas janelas pintadas em preto. A cor não é aleatória e era feita com uma tintura capaz de cortar o fogo. Como as construções de madeira eram — e são até hoje — a regra, incêndios ocorriam com frequência.

O espaço, super bem preservado, é cheio de relíquias. Utensílios, máquinas e meios de transporte em exposição fazem fácil de entender os mais de 300 anos de história da empresa. Também há uma seção sobre como a bebida é produzida. O único porém é que tudo é em japonês e, neste caso, nosso papel de guia acaba se tornando indispensável para quem quer elucidar a experiência com todos os detalhes.

Hora da prova

Sem dúvida, a parte mais esperada por quem visita é o kikizake, ou seja, a degustação. Antes, porém, de cair de cabeça na bebida, não deixe de provar a água com que o saquê é produzido. Isso porque o líquido é um elemento essencial no sabor do nihonshu. O grande trabalho dos mestres e das mestras de saquê é fazer o perfeito casamento entre a água, o arroz e os organismos vivos usados no processo de produção. O pequeno museu tem duas fontes: uma na entrada e outra dentro da sala de degustação.

Cada fábrica oferece experiências diferentes de kikizake. Na que visitei, cerca de 10 rótulos são oferecidos para degustação sem custos. São saquês de diversos estilos, do nihonshu aos licores, que dão uma ideia de como as empresas têm uma linha bem diversificada de produtos. Também é possível provar, por um valor fixo, dois dos rótulos mais especiais da linha da casa.

Junmai daiginjo são os nihonshu puro arroz (ou seja, sem adição de álcool) com uso de 50% ou menos do grão de arroz na produção. Isso quer dizer que, no seu processo de produção, é usado menos da parte externa do arroz que é formada por substâncias que podem trazer um sabor desagradável à bebida. Ou seja, é o fino da bossa, a crème de la crème, para usar expressões bem antigas.

Numa visita a uma fábrica, nunca deixe de degustar as bebidas, a menos que você esteja dirigindo. A oportunidade ajuda a depurar o paladar e, principalmente, a descobrir o saquê que agrada o seu paladar. Em geral, os produtos estão disponíveis para compra. É a chance de levar para casa aquela garrafa que vai ser a memória gustativa da sua viagem.

Fique, então, com o vídeo gravado em Kitakata. Não esqueça de deixar suas perguntas e apreciações nos comentários. Até a próxima!


Roberto Maxwell

Roberto mora no Japão há 15 anos e é jornalista e acompanhante de viagens.

Seu trabalho pode ser encontrado no site Direto do Japão e Tabiji.

Visite, também, o seu perfil no Instagram @robertomaxwell.




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